Em muitas casas, a sala tinha um móvel de madeira que ficava no centro das atenções. Dentro dele, uma luz alaranjada acendia aos poucos, e logo uma voz ou uma música surgia, vinda de lugar nenhum.
O rádio de válvula e a vitrola animaram noites e domingos de várias gerações. Como será que eles funcionavam?
O que é uma válvula
A válvula é um tubo de vidro, sem ar dentro. No interior, há peças metálicas pequenas. Uma delas é um filamento que esquenta, como o de uma lâmpada comum. O calor faz o metal soltar minúsculas partículas elétricas, chamadas elétrons.
Esses elétrons viajam pelo espaço vazio até outra peça do tubo. Pelo caminho, uma grade metálica pode deixá-los passar com mais ou menos facilidade. Assim, um sinal elétrico fraco consegue controlar uma corrente muito maior.
Essa é a ideia central da amplificação, e é o que fazia a voz sair forte do alto-falante.
A válvula com grade, chamada de tríodo, foi desenvolvida no início do século XX pelo inventor norte-americano Lee de Forest. Antes dela, houve a válvula mais simples, de Ambrose Fleming, em 1904. Foi por causa delas que o rádio e, mais tarde, os primeiros aparelhos eletrônicos se tornaram possíveis.
Por que o rádio demorava a ligar
Quem teve rádio de válvula lembra da espera. Você girava o botão e nada acontecia. Era preciso aguardar alguns segundos, até as válvulas esquentarem. Só então o som aparecia, primeiro baixinho e depois mais firme.
Essa espera tinha explicação. O filamento precisava chegar à temperatura certa para liberar os elétrons. Por isso, as válvulas também esquentavam o aparelho inteiro, e era comum sentir o calor saindo pelas aberturas do móvel.
Como a voz chegava pelo ar
As emissoras de rádio transmitem sinais por ondas eletromagnéticas. Na faixa de ondas médias, conhecida como AM, o som da voz modifica a força da onda que viaja pelo ar. A antena do aparelho capta muitas ondas ao mesmo tempo, de várias emissoras.
Para escolher uma delas, havia o botão de sintonia. Ao girá-lo, o ouvinte mudava a posição de uma peça interna chamada capacitor variável. Junto com uma bobina, essa peça deixava o aparelho sensível a uma frequência de cada vez. Era como afinar um violão até achar a nota certa.
Depois, o sinal passava por um estágio que separava a voz da onda que a carregava. Em seguida, as válvulas amplificavam o som, e o alto-falante o transformava em vibração do ar. A partir daí, a voz enchia a sala.
O rádio no Brasil
A radiodifusão brasileira deu os primeiros passos na década de 1920. Em 1923, foi criada no Rio de Janeiro a Rádio Sociedade, por iniciativa de Edgard Roquette-Pinto, que via no rádio uma ferramenta de educação e cultura.
Nos anos seguintes, o rádio se espalhou. Em 1936, foi fundada a Rádio Nacional, no Rio de Janeiro, que ficou famosa pelos programas de auditório, pelas radionovelas e pelo jornalismo. Famílias inteiras se reuniam em volta do aparelho para ouvir as histórias, num costume que hoje parece distante.
Como funcionava a vitrola
A vitrola tocava discos de vinil ou de um material mais antigo chamado goma-laca. O som fica guardado no disco como um sulco fino em espiral. As paredes desse sulco têm pequenas ondulações, que acompanham a forma da música.
Ao tocar, uma agulha fina corre dentro do sulco e vibra conforme as ondulações. Nas vitrolas mais antigas, essa vibração era ampliada por uma corneta, sem eletricidade. Nas elétricas, uma cápsula transformava a vibração em sinal elétrico, que era amplificado, muitas vezes pelas mesmas válvulas do rádio, e enviado ao alto-falante.
O disco girava em velocidades diferentes. Os antigos discos de 78 rotações por minuto traziam uma música de cada lado. Depois vieram os discos de 45 rotações, com uma música por lado, e os de 33 rotações, os long-plays, que podiam reunir um álbum inteiro.
A palavra vitrola vem de Victrola, marca de um aparelho lançado nos Estados Unidos, no início do século XX, com a corneta escondida dentro do móvel. No Brasil, o nome acabou virando sinônimo de toca-discos.
Cuidado com os aparelhos antigos
Quem encontra um rádio de válvula guardado deve ter cuidado. Mesmo desligados da tomada, esses aparelhos podem manter carga elétrica em algumas peças por um tempo. Por isso, não é recomendado abrir nem mexer neles sem a ajuda de um técnico experiente.
Para quem só quer admirar, basta manter o móvel limpo e longe da umidade.
Curiosidades rápidas
- A válvula funciona com calor e vácuo, sem partes que se mexem.
- As válvulas esquentavam, e por isso o rádio demorava um pouco a tocar.
- Em 1923, nasceu no Rio de Janeiro a Rádio Sociedade, de Roquette-Pinto.
- A Rádio Nacional foi fundada em 1936 e marcou a era das radionovelas.
- O botão de sintonia mudava a posição de uma peça chamada capacitor variável.
- Os discos de 78 rotações eram frágeis e quebravam com facilidade.
- A palavra vitrola vem de uma marca, a Victrola.
Perguntas frequentes
Por que a vitrola precisa de uma agulha?
Porque a agulha percorre o sulco do disco e vibra com as ondulações dele. Essa vibração é a base do som, seja pela corneta ou pelo sinal elétrico.
Rádio de válvula ainda funciona?
Muitos funcionam, se foram bem conservados e revisados por um técnico. Peças antigas podem ter envelhecido, por isso a revisão é importante antes de ligar.
Qual é a diferença entre AM e FM?
No AM, o som altera a força da onda de rádio. No FM, o som altera a frequência da onda. O FM costuma ter som mais limpo, e o AM alcança distâncias maiores.
O som de uma época
Esses aparelhos nos lembram que a tecnologia, antes de ser prática, foi companhia. Ouvir uma música inteira, do começo ao fim, em volta da mesma sala, era um modo de estar junto. Talvez esse seja o maior recado que o rádio de válvula e a vitrola ainda nos deixam.
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